A Tunísia se transformou no final de 2010 no inusitado cenário do que alguns estão chamando de “Primeira Cyberguerra” de ativistas contra governos.
A auto imolação de um jovem desempregado, na frente do palácio presidencial, por haver sido espancado pela polícia ao vender frutas e verduras sem autorização, foi o estopim que catalizou as frustrações contra o governo do presidente Ben Ali, no poder há 23 anos.
Para tentar controlar o crescimento dos protestos e manifestações de rua, o governo passou a censurar o assunto na internet tunisiana, desencadeando uma reação do grupo de hackers cyberativistas Anonymous, que há pouco tempo ficou conhecido mundialmente após retaliar empresas por boicotarem o site de divulgação de documenntos Wikileaks. Os ataques direcionados do coletivo Anonymous, surtiram efeito e derrubaram sites governamentais tunisianos.
Partindo desse cenário achei interessante fazer algumas considerações a respeito do tema.
A internet inequivocadamente se tornou uma nova fronteira de batalha entre poderes governamentais, poderes econômicos e liberdades sociais. Partindo desse princípio, a ameaça aos direitos individuais hoje em dia está longe de ser protagonizada apenas por ditaduras e governantes autoritários.
Cuba, Arábia Saudita, Irã, Coréia do Norte e China são apenas alguns exemplos mais óbvios do poder político interferindo no livre tráfego de informações na rede. Desses, de longe é a China que tem o maior know how de repressão virtual, configurando-se uma ameaça não apenas à própria população, mas também ao restante do mundo, seja pela exportação de técnicas de censura, seja pela capacidade de retaliação contra entidades e governos no caso de ser contrariada.
No entanto a China não age sozinha. Ela conta com a conivência, muitas vezes entusiasmada, do capital através de empresas próprias e – principalmente – de multinacionais ávidas por entrarem no mercado consumidor local.
Sem o apoio técnico dessas empresas seria impossível para o governo chinês manter a eficiência do atual sistema de censura. E contra esse sistema que alia o autoritarismo político com o poder econômico, tenho cá minhas dúvidas se grupos de hackers, como esse Anonymous, tenha alguma chance.
Isso sem falar de iniciativas que já se desenham no mercado global, de empresas de comunicação, de telefonia e de alguns governos ocidentais em setorizar o tráfego de internet, favorecendo quem pagar mais para ter acesso à rede. Será a virtualização da luta de classes.
Diante disso, a Tunísia será apenas uma brincadeira na frente do computador, num final de ano qualquer.



